Sobre o tempo.
Cheguei a pouco em casa. São exatamente 1:00 am, e decidi escrever uma carta para vocês: pai e mãe.
Vocês se lembram de quando se conheceram? De como foi o namoro de vocês? A algum tempo atrás perguntei a vocês porquê vocês se casaram, se lembram?
O sentido da vida é reconhecido nos motivos que damos para vivê-la! Quando eu criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, fiz desaparecer o que era próprio da criança(I Cor 13,11)Muito tempo se passou desde que se conheceram. Muitas águas já rolaram. Cabelos embranqueceram. Contudo, vocês fizeram uma escolha. Optaram em dar um sentido a vida de vocês casando-se.
Quantas dificuldades. Quantos embaraços. Tantos medos. Outras tantas escolhas dentro de um única escolha: o casamento.
Entretanto, quantos momentos bons, agradáveis, aprazíveis... Quantas alegrias, vitórias e certezas.
Como dizia Cazusa “o tempo não para”. De fato não para ver vocês se casando. O tempo não parou para acolher a suas lágrimas nem para alegrar-se com vocês.
Porém, vocês se casaram, vocês choraram e se alegraram.
Hoje você já não são mais crianças, nem pensam como criança. Deixaram este dom de Deus para traz. Coisa de gente grande, isso é normal. As obrigações de pão e de mãe gritaram, falaram alto.
Veio um. O primeiro, e se chamou Luís Roberto. Porque colocaram este nome nele? Opa! O segundo filho, uma menina: Renata Aparecida. Supresa! O terceiro e último: Ronaldo José. Porque esses nomes, algo de especial?
Cada um, uma cara. Cada cara de um jeito. Filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Eles cresceram, deram muito, mas muito trabalho... Mas também muitas alegrias. Alguns já se reproduziram e expandiram a família: Sergio Henrique e Miguel Ângelo.
E o tempo... O tempo não para! E o sentido da vida é reconhecido nos motivos que damos para vivê-la.
Se por muito, muito tempo dedicaram o tempo e o labor, isto é, o trabalho braçal de vocês à sua prole, seus filhos, pensa bem, “este é o meu tempo, este é o nosso momento”
Recupera pois a criança perdida dentro de vocês e de as costas(e o dedo se vocês também quiserem) para o tempo e vão viver, pensar, amar, perdoar, olhar para Deus com o espírito da criança que vocês ainda tem em algum canto do coração de vocês.
Esta vida não tem sentido em si, somos nós quem damos. Neste momento qual o sentido que vocês estão dando a vida de vocês? Com temores, medos, más recordações ou motivados, esperançosos e dispostos?Epicuro, um amigo com mais de dois mil anos, disse assim e transcrevo para vocês:
“Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.
Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.”
Não percamos nosso “tempo” desejando viver eternamente, pois isso não é da nossa ossada. A nós cabe levar essa vida com dignidade e honestidade nas mais simples das felicidades e prazeres. Por isso, se ocupem com aquilo que vos é presente: a vida, e a vida de vocês, deixem que da nossa, aos poucos aprendamos nós com o exemplo de vocês aprendemos a cuidar. Vocês já nos deram muito, e muito ainda nos tem dado, agora é a vez de vocês.
Saiam mais vezes juntos. Rezem mais vezes juntos. Tenham programas comum que agradem a ambos. Comam mais vezes juntos. Não percam tempo com a televisão. Se curtam, se descubram. Vocês ainda são novidade um para o outro e o mundo espera por vocês! Muito me alegraria saber que vocês saíram juntos, nem que fosse para Presidente Epitácio-SP(risos).
Aceitem com alegria seus anos de vida e as conseqüências naturais também. Evitem lamentar!
O amor verdadeiro é mútua abertura de um para o outro. “Eu” sem “tu”, sem “ele” não existe, assim com “tu” e “ele” sem “eu” também não!
Cultivem o silêncio. Ele fala mais que esta carta.
Concluo com o velhinho Epicuro:
“Medita, pois, todas essas coisas e muitas outras congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais sentirás pertubado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás com um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.”
Amo muito vocês. Cuidem um do outro e logo estarei ai com vocês! Deus nos abençoe.
Piracicaba-SP, 24 de setembro de 2009. 2:30am
Ronaldo Rocha.
2 comentários:
Comovente amigo
Belíssimo... para aquelas pessoas que deixam para amanhã o beijo naquele em que talvez nem encontrem hoje... aquelas que preferem deixar pra depois o almoço com os amigos... Muito bom... belíssima reflexão...
E que saibamos cada vez mais viver o agora esquecendo as entrelinhas dolorosas do passado...
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